terça-feira, 11 de agosto de 2009

guidable - Entrevista com Jão, do ratos de porão



Do site Void

por gabriel Kverna

Kverna - Vamos começar falando do Guidable. Qual o impacto em ver anos da banda, anos da história da tua vida resumida em poucas horas?
Jão - Putz, é complicado, porque realmente a maior parte da minha vida passa no filme e resumir tudo isso em duas horas é complicado. Mas como a história do Ratos é grande e com muitas mudanças, acho que foi legal. O moleque que conhece o Ratos de Porão a partir da mídia, do João Gordo ou da MTV, passa a conhecer mais a história da banda mesmo. E o legal é que não é um bagulho muito didático, a história é contada de uma forma meio retardada, o que ficou a cara da banda.
Kverna – Há uns poucos anos foi lançado o Botinada, que é mais ou menos um resumo do que é o punk no Brasil. Você acha que o Guidable é um complemento, ou algo assim?
Jão - Eu acho que é um bagulho meio paralelo. O Botinada lida com o punk e depois pega uma geração posterior, mas tem uma lacuna no filme. No Guidable, a coisa é mais contínua, até porque o Ratos conseguiu sobreviver a muita coisa, muita crise, sempre de forma intensa. A gente sempre esteve tocando, lançando disco… Então não tem como desvincular. Eu acho que se você pegar o começo do Guidable e do Botinada, tem coisas que se cruzam.
Kverna - Uma das coisas que me chamou atenção que tu falou no documentário foi que quanto vocês eram moleques vocês nem tinham a idéia do que era hardcore, a intenção era tocar mais rápido. Hoje a intenção ainda é essa?
Jão - O Ratos sempre quis tocar rápido, ter um som consistente e porrada, nervoso. Mas na época o que a gente tinha de mais rápído era o Olho Seco. Quando a gente montou o Ratos, estava vindo muita coisa simultânea, de fora, tipo o princípio do hardcore americano, o inglês com o Discharge. Então, pelo fato de a gente ter pêgo essa época e ter uma conexão com coisas de outros países, começou a surgir muita coisa nova. Foi aí que o Ratos foi criado. Mas na verdade, a primeira vez que o Ratos saiu num fanzine, os caras escreveram que o RDP era hardcore. A gente ficou meio cabreiro, o hardcore que a gente conhecia era umas revistinhas pornográficas que existiam nos anos 70, aquelas meio sueca (Risos).
Kverna - Teve essa história de o clipe de Covardia de Plantão ser censurado pela MTV, por que diziam que mostrava muitas cenas de violência gratuita. Tu acha que depois de quase trinta anos de banda essa merda de censura ainda tem força pra encher o saco?
Jão - Eu acho que a sociedade brasileira continua hipócrita. Porra, a violência tá presente em qualquer grande metrópole do país, faz parte do cotidiano. Não sei se é por falha da lei ou sei lá o que, mas a gente sempre vê o cara matar alguém e dali a três anos o cara tá na rua, cumprindo pena em liberdade. Aí você tem uma banda e faz um clipe que mostra a violência e as pessoas se chocam. Pô meu, pega uma novela pra ver. É só putaria, traição…
Kverna - Vão rolar mais clipes desse disco, o Homem Inimigo do Homem?
Jão - Cara, acho que não…O bagulho é caro… Quando sai clipe do Ratos é na camaradagem. Algum amigo que curte a banda, que trabalha com cinema ou coisas afins que chega e faz no suor mesmo.
Kverna - Mesmo sendo uma banda que tem nome no hardcore e fora dele, grana ainda é complicado?
Jão - Sim, é complicado. O Homem Inimigo do Homem foi lançado pela Deck, que lançou Dead Fish, Pitty, Mukeka di Rato e óbvio que eles não iam dar grana pra nós fazermos um videoclipe igual deram pra Pitty, né? E mesmo dando uma merreca, os caras ainda reclamaram, vieram dizer “Que porra de videoclipe é esse?”. Foi uma chiadeira geral, eles vieram perguntar onde iam conseguir passar aquilo. Sei lá mano, passa no Jornal Nacional, no Globo Repórter, no Ratinho (risos). Foi pro Youtube, aí quem quiser ver, tá lá.
Kverna - E o Ratos da Periferia, quando surgiu, muita gente dizia que o Ratos de Porão ia acabar, que tu tinha entrado em conflito com o Gordo…
Jão - Quando eu montei o projeto do Ratos da Periferia, a intenção era tocar em vários lugares, como a gente fez em São Paulo. Era eu o Jabá e o Betinho, que foram os caras que criaram o RDP. A idéia era tocar as músicas antigas, do começo da banda. Foi quando o gordo fez a operação de redução do estômago e o RDP ficou um ano parado. Daí o Gordo sarou. A história do RDP é maior do que os própios integrantes. Por mais que o Betinho e o Jabá tenham montado a banda comigo, o Gordo tá há 26 anos na banda, o Boka tá há 18 anos…Aí eu falei pros caras, olha não dá pra ter dois Ratos de Porão coexistindo, é muito rato pra pouco queijo. Por isso lançamos o cd Periferia S/A, tiramos o Ratos do nome. O som do Periferia é mais oldschool. Foi legal porque fazia tempo que eu não pagava de vocalista, falei merda pra caralho, xinguei um monte (risos). Mas os outros caras, o Betinho e o Jabá, tem uns trampos normais, aquela coisa de segunda a sexta-feira, das 08h às 17h, aí não teve como dar continuidade no lance, que começou como projeto, virou banda e acabou (risos).
Kverna - Vocês lançaram dois CDs ao vivo, disco de cover, revista, lançaram documentário…E DVD ao vivo? Quando sai?
Jão - Cara, já era pra ter saído o DVD com um show no Circo Voador, no Rio de Janeiro. Mas aí deu maior rolo, virou um bagulho que encheu o saco, em vez de ser legal. O pessoal que ia fazer o lançamento não queria mais lançar, a gente ficou meio puto. Mas sei lá, esse lance do documentário é legal porque conta a história da banda, não é um caça-níquel.
Kverna - Mas quando o Guidable sair em DVD vai ter um monte de extra, várias outras histórias pra contar, né?
Jão - Quando sair em DVD vai ter um monte de extras de tours, de viagens, de bebedeiras no meio da estrada. Vai ter muita coisa legal.
Kverna - Tu sabe quantas tours fez na vida?
Jão - Eu não sei, desde 1989 vou todo ano pra Europa, não dá pra saber.
Kverna – O Boka foi tocar no Japão com o Vitamin -X. O Ratos nunca foi pra lá?
Jão - Putz, não. É uma lacuna. Deve ser foda, se o RDP fosse pra lá ia causar geral. A Costa Oeste dos Estados Unidos é outro lugar que a gente já deveria ter ido, tocar na Califórnia, por exemplo. Mas é aquela história, você vai onde consegue sincronizar a vontade com o lance de a tour se pagar. Porque é complicado sair pagando pra tocar. Nego tem família, é complicado.
Kverna - Cara e eu tenho uma história meio foda. Nessa semana o namorado de uma amiga minha saiu da sessão do Guidable e foi direto pra uma boca de fumo buscar droga. Detalhe: o cara tinha saído de uma clínica de reabilitação…
Jão - Putz, que merda. Mas se o cara foi pegar só fumo, beleza, mas se for pegar pó é meio foda. É aquela história, se pó levasse alguém pra algum lugar eu já teria chegado lá num pé só (risos).
Kverna - E vocês, com o documentário, não devem se preocupar em causar uma boa ou má intenção. É a história de vocês, né?
Jão - E também não dá pra ser hipócrita. A real é que a banda existe há 28 anos porque a gente gosta de fumar maconha e ficar muito louco junto, a música é só uma conseqüência (risos).
Kverna - Esse lance de falar de política e o caralho. Vocês às vezes ainda escrevem sobre política e tal…
Jão - Não tem muito como fugir disso né, mano? Até pelo lugar de onde a gente veio, não pra falar muito de outra coisa. Vai falar do que? Brasil é maior país de filho da puta, político safado, o Senado cheio de hipócritas evangélicos querendo crucificar caras como eu e você. Alguém tem que fazer o trabalho sujo de pelo menos mandar esses caras tomar no cu, já que não dá pra mandar pessoalmente, pelo menos mandamos o recado.
Kverna - Já rolou de algum político processar vocês?
Jão - Não, se nego fizesse isso pra nós seria interessante. É a maior promoção gratuita que uma banda pode conseguir. Uma vez o Gordo tava numa livraria e deu de cara com o José Genoíno, bem na época do mensalão. O Gordo falou: “Fiz nada não mano, mó véio grandão, que você queria que eu fizesse?”. Pô, podia pelo menos chegar pro cara e dizer (imitando a voz do Lula): Companheiro José Genuíno, você pisou na bola. É complicado, não sei se um dia eu visse o Maluf na minha frente eu conseguiria me segurar e não dar um tapão na orelha dele. Mas se eu fizesse isso eu ia me foder muito e não ia conseguir mudar muita coisa.
Kverna - Hoje 90% da banda é vegan ou vegetariana. Foi graças ao Juninho?
Jão - Eu lembro quando o Boka virou vegetariano. O Gordo pegou a perninha de um coelho e ficou balançando na frente dele. Mas o Gordo foi legal de ter virado vegetariano. O cara comia galinha de cabidela, aqueles rango tosco…Mas também eu fui alcóolatra, viciado em drogas…Não comer carne pra mim é o de menos, preciso resolver muita coisa ainda na minha vida (risos).
Kverna - E rola o mesmo pique pra tour até hoje?
Jão - Ah, sei lá. Eu meio que empurro com a barriga. Tem que ir vivendo. Não dá pra ficar reclamando. Outro dia fui jogar bola, mó negócio legal e saudável, fui matar uma bola e ela bateu bem no dedão de segurar a palheta. Esporte mata, meu!(risos).
Kverna - E o que mantém o RDP junto tanto tempo?
Jão - Tem uma porção grande de teimosia. Um é apresentador de TV, outro é vagabundo, um é vegan, outro é surfista… A gente nunca espera muita coisa, isso que mantém a banda viva. A gente grava um disco e sabe que não vai vender, que não vai ganhar porra nenhuma, tá ligado? Eu nasci na Vila Piauí, pelado, banguela, que expectativa eu teria? Pra mim a banda foi a salvação. Hoje eu tô aqui comendo o rango vegan. Se não tivesse aqui provavelmente eu estaria lá na minha vila bebendo uma pinga, bem gordo, inchado…Para cada um de nós tem uma parada diferente. Pro Gordo é foda, ele não consegue sair na rua que nego começa a gritar o nome dele, tá ligado? Eu não sei se gostaria de ser o cara, ele não pode ir a lugar nenhum, não pode sair do portão.
Kverna - E na real o pessoal acha que ele é irritado, mas a galera enche o saco também.
Gordo: É um preço que o cara paga por estar sempre super exposto na tv e tal. Mas, porra, eu acho que o RDP vive porque a gente sempre curtiu o que faz.
Kverna - O futuro então é continuar tocando no Ratos, continuar vagabundão…
Jão - Vagabundão eu falei mas é meio pejorativo comigo mesmo. A gente tenta manter a banda numa certa rotina, tocar, ir pra vários lugares. Isso mantém a parada viva, entende? Estar sempre em movimento. Se a gente tem que fazer tour agora é igual a 20 anos, vou dormir bêbado no meu saco de dormir. Não o Juninho nem o Boka, mas eu vou estar bêbado com certeza (risos). Nunca parei pra pensar muito no futuro. Na época da minha adolescência tinha a Guerra Fria. Então porque eu ia me cuidar se um filho da puta podia apertar um botão e explodir tudo?
Kverna - E tu acha que o mundo continua assim? Pode acabar a qualquer momento?
Jão - Não, tem muita gente ganhando dinheiro no mundo capitalista, então a idéia é outra, é explorar (risos).

3 comentários:

  1. haha, mto massa ler essa entrevista com o Jao, bebado. ele é mais gente boa do ratos!!!

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  2. Jão é O CARA do Ratos. O fundador da bagaça.

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  3. Baixar o Documentário - Guidable – A Verdadeira História do Ratos de Porão - http://migre.me/dMBOs

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